Um total de 80 faixas em um disco duplo é o que Dona Maria do Batuque apresenta neste seu primeiro lançamento, que serve quase como uma leitura oficial da cultura popular de São Romão (MG), pequeno município do noroeste mineiro, a 510 quilômetros de Belo Horizonte. As músicas retratam os costumes de São Romão, os aspectos naturais da região e os fatos do passado, tudo contado por meio dos ritmos dos tambores e das canções populares. Antes deste registro, o Batuque de sua mãe, dona Ernestina, já tinha ganhado espaço nos versos de Guimarães Rosa, que cita uma passagem da celebração em sua obra "Magma", de 1939.
O batuque vai abaixo? Ele não vai não foi gravado por 31 pessoas, entre músicos e cantadores, sendo que 20 deles irão se apresentar com Dona Maria no palco do Stereoteca. O projeto foi idealizado pelo músico Rafael Duarte, que trabalhou como professor em São Romão, conheceu o batuque e decidiu registrá-lo, "antes que a tradição pudesse se perder". O álbum duplo ainda conta com um livro-encarte, contendo as transcrições das letras e músicas em partituras, além de informações históricas sobre o batuque.
Dona Maria do Batuque
Aos 77 anos de idade, dona Maria C.G Moura mantém a tradição deixada por sua mãe, dona Ernestina, na cidade de São Romão. Segundo dona Maria, seus avós e bisavós já mantinham a celebração, composta pelos tocadores de roncador (instrumento de origem africana similar à cuíca), caixa, além dos homens e mulheres que cantam, batem palmas e dançam. Como é próprio do batuque, há um refrão, iniciado por Dona Maria, e um coro responsório. "Quando eu dançava, já com sete anos, meus avós já dançavam desde criança", explica a cantadora.
Sobre a tradição do Batuque
O batuque é uma manifestação musical brasileira surgida de algumas rodas de danças africanas chamadas de semba, de onde desenvolveu-se o samba. Algumas das estruturas musicais provenientes do batuque podem ser identificadas até hoje: compasso binário, estribilho fixo entoado por um coro de versos cantados ou improvisados, além das palmas com ritmo sincopado. Praticamente não se dança mais o batuque no Brasil, exceto no interior de São Paulo e da Paraíba, onde a manifestação luta para não se perder. A maioria dos registros que se tem a respeito da festa está em romances brasileiros do final do século XIX.
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